quarta-feira, 2 de junho de 2010

Eu que não sei

Eu que já nem sei se sou mesmo algo assim que possa ser de bom grado, tenho andando de mãos dadas com a angústia... (A vontade de dizer aquilo que não se pode, de xingar de berrar e chorar pra pedir colo... No entanto por diabos tenho que me fazer de forte, de guerreira... Esquecer que sou pequena, menina, frágil com todo direito de sê-la... Com todo direito de sê-la como diria Álvaro de Campos... Eu nunca quis nada disso, nem as alterações de humor, nem as frivolidades, nem as folias sem graça que as pessoas inventam pra disfarçar sua própria miséria.) Eu que já nem sei o que sou, sei bem o que quero... Queria mesmo só uma rede, embaixo de uma mangueira, a zuadinha de riacho, melhor ainda a maciez do colchão sobre o chão, o cheirinho doce de incenso, o toque suave da pele... O colo do meu amor...

Tanto sonho... E esse morrer de todo dia me segurando nos joelhos, deixando meu corpo seco e roxo... Quanta merda a gente acumula no caminho... Enchendo as veias de responsabilidades emprestadas, de vidas que não são as nossas... Adoecendo por interesses alheios...

Tsc...
Queria mesmo era  a maciez do colchão no chão, o cheirinho doce de incenso no toque suave da pele, o colo do meu amor.

terça-feira, 1 de junho de 2010

infâmias ínfimas

arrancam-me a estima os cabelos
estreitam-me as costas os ombros largos
a pele nua, manchada de sol
clareia com a tarde

estremeço nas tardes os suspiros
das taras renegadas
o corpo carne quer ser vício

o rosto roto cravejado de outros
vivos cravos que não florescem
o corpo carne quer ser livre

o nariz embolado quer diluir-se
ser cheiros e suspiros
as orelhas, agora imensas, captam
o tempo, a chuva, as ondas dos passos ligeiros
o riso amigo
o corpo carne quer ser livre

por um dia, por dois dias
não caibo nesse corpo de incomodos
deslizo-me nos cantos
me liberto em ardência

o corpo carne quer ser livre
e a alma, vaidosa, estoura-se luz
bela e contínua
 festejando
essa festa rosa do fim de tarde.