domingo, 26 de junho de 2011

Manhãs

A lembrança mais antiga que tenho da minha infância, daquelas que nem sabemos se realmente aconteceu, é de Pai Antonio, meu avó paterno, entregando a mim e a minha prima bananas roxas. É tão escura, mas tão clara, ainda estão imprimidas em mim as cores do xadrez da camisa que ele usava e o turvo embaçado do seu olho azul... Eu quase nem lembro do rosto dele, acho que apenas juntei o que lembrava às fotos que vi, e é a única lembrança que tenho do meu avó paterno: aquele xadrez, meio rosa meio verde, meio roxo... Que nem as bananas... O olho acabrunhado e brejeiro, refinado pela cor azul, o xadrez violáceo, o fruto sendo entregue.
Lembro de brincar tardes inteiras nos bananais, mas essas são outras lembranças, mais próximas, mais nítidas.
A segunda lembrança mais antiga que tenho é de mamãe me dando de mamar. Eu sei, soa estranho, mas por ser a caçula de sete filhos e mamãe tendo quarenta e três anos, fui amamentada até os três anos de idade. Lembro de olhar para as palhas das palmeiras de juçara, o vento balançando, balançando... E de ter o peito arrancado subitamente da minha boca por vergonha já que um tio havia entrado indevidamente no quintal.

E me pergunto que sentido tem isso, porque elas foram escolhidas para perdurar na minha consciencia
A doçura fria do xadrez do meu avó, o peito me sendo arrancado por vergonha.
Não lembro da morte do meu avó.
Não lembro de muita coisa...

 Mas sei que muitas vezes guardei muito pouco de quem muito me queria bem, e muitas outras vezes larguei o que me dava prazer por vergonha, por discrição descabida, receio do que se pensasse...
Heranças que não quero deixar. Nem em lembrança.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Piléria


Miranda achava que tudo tinha esfriado
Mergulhou em certeza ao receber do marido, no dia dos namorados, a pior das infâmias: uma lingerie bege.

.